LOCHS & THOUGHTS, Uma viagem imaginária pela escócia improvável

Pisco os olhos, surpreendido.
Confesso que já esperava um verde vivo nesta Escócia por descobrir. Mas este é um verde maior, que supera a expectativa e serve de primeiro gáudio à decisão de subir até ao improvável Norte do Reino Unido, em vez de voltar a apostar nas sempre seguras apostas de Amsterdão, Berlim ou Barcelona. Porque escolher uma cidade vibrante acaba por ser menos arriscado, preferi mergulhar numa calma que noutras fases poderia considerar inóspita. Gosto deste doce sabor do inesperado, que saboreio em frente a este verde radiante, numa dança fingida à frente dos meus olhos, à medida que o comboio avança sem pressa, como um fecho éclair que fecha duas partes que sempre foram supostas estar juntas.
Como se as montanhas não chegassem para tornar a paisagem estimulante, há um riacho que serpenteia este verde que parece pintado para nos alegrar o dia. Sem pensar, espreito o relógio que decidi trazer por excepção no pulso esquerdo. Tenho um especial prazer por fazer uma excepção rara daquilo que é uma normalidade monótona na maioria das pessoas, nunca saberei verdadeiramente porquê. E ainda bem, porque não há nada mais aborrecido do que saber tudo. Raramente uso relógio, porque o iPhone o substitui em quase tudo. E se é para ter o deleite da diferença, que seja poucas vezes. São estas pequenas exclusividades sem razão aparente que marcam o ritmo de prazeres que só nós sabemos sentir. Três e meia da tarde, um minuto desrespeitoso mais.

“Fecho os olhos e volto a abri-los, como se fosse a minha Leica a registar aquele momento para um dia mais tarde confirmar o encanto de um primeiro olhar e decido trilhar pela direita, sem saber porquê.”

À minha frente, o “Den Burn” brinca com os campos, salpicando água em pequenas represas aqui e ali. O termo Burn usa-se na Escócia, Inglaterra e no Ulster, para além de em algumas zonas da Oceania, com um significado que gravita entre “fonte” e “fresco”. Sei que não falta muito para Perth, a primeira das paragens e de onde partirei, por mais alguns dias, sem destino ainda conhecido. Para trás ficou Edimburgo, que preferi não conhecer. Não era essa a ideia e não me apeteceu trocar as voltas a mim mesmo, correndo o risco de ficar encantado ao ponto dessa cidade prometedora tirar o protagonismo que espero seja Perth a assumir. Perth e tudo que ficar para lá desse ponto de partida desta viagem.
— Chego sempre na hora em que sais — ouvi, sem ignorar o sorriso da senhora que segue no corredor, mesmo à minha frente. Um sorriso autêntico e quente, que de repente se torna em nosso. É assim que gostava de conhecer esta Escócia: sem ideias forçadas nem caminhos preparados, tudo ao genuíno da incerteza, longe das rotinas que fazem confusão. Devolvo o sorriso timidamente, antes de voltar a olhar para a Sarah que vai sentada ao meu lado, imperturbável na leitura do seu Kafka há mais de meia hora, o som do In Utero a extravasar as fronteiras ténues dos seus headphones. Sei que vai a fazer de conta, num suposto desinteresse total neste que a acompanha, num passeio silencioso.
De vez em quando abre o whatsapp, para mais uma rodada de actualizações, o único momento em que se deixa sorrir, que se deixa ir. Foi assim que descobri o seu nome, sem evitar uns fugazes olhares com aroma a espionagem. É que esta Sarah pode muito bem ser a minha futura companheira de viagem. Ou mais, pode ser muito mais. Pode ser a minha companheira do tudo-e-mais-alguma-coisa que me reserva o futuro. Ou pode simplesmente desaparecer para nunca mais a ver, ficando como uma memória passada de um futuro não vivido. Sorrio para mim das estupidezes que me ocupam o cérebro, ciente que são totalmente absurdas ou nem por isso.
— Disfarças bem, mas ainda pensas em mim — imagino-me cantar sem os tiques de quem não controla os tremeliques e paralisa quando ela passa. Como se esta desconhecida fosse uma candidata a fiancée e estivesse a resistir a viver esta primeira vez. Mas eu sei, sei que está a disfarçar, porque demora meio minuto a ler uma página e quase sete e ler outra qualquer. E porque me evita, como se fosse a última vez.
Fecho os olhos por momentos, imaginando uma cena de Macbeth, passada precisamente por estas paragens. Esta Sarah de calções curtos e pernas magras estava lá, a desafiar cada personagem da mais curta tragédia britânica, antes de ser resgatada por mim. Consciente que tenho de ser uma personagem ainda maior, suficiente para deixar Miss Shakespeare a deixar-se enrolar na minha história, encarno William Wallace, desejoso de estar lado a lado com o pecado malvado, antes de gritar “independência“ e sentir o arrepio de quem nunca cede, de quem nunca desiste quando a pátria é nossa, de quem nunca se entrega quando a luta vale a pena.
Chegamos a Perth e ela levanta-se prontamente ao meu lado, sorrindo–me no último olhar, quase como se me convidasse a segui-la pelas ruas desconhecidas desta cidade que já cheira a tudo que eu queria mas ainda nem sabia.
Saio, descontraído e o primeiro impacto é um mergulho. Um mergulho na Escócia real. Estou cá, neste país que sempre amei sem conhecer, de Braveheart a Highlander. Espreito o Station Hotel, mesmo em frente, e já me parece uma espécie de Westmisnster Abbey local, com as suas janelas de sete vidros e abóbadas marcantes que nos recordam que estamos no meio de um país cheio de História, cheio de atitude. À frente, um parque de estacionamento rodeado com pipos disfarçados de vasos e uma escultura de galhos, a homenagear aqueles que tratam os nossos parques e jardins e que fazem os nossos dias melhores. Fecho os olhos e volto a abri-los, como se fosse a minha Leica a registar aquele momento para um dia mais tarde confirmar o encanto de um primeiro olhar e decido trilhar pela direita, sem saber porquê. Meia milha mais à frente encontro as primeiras casas vitorianas, misturadas com outros estilos, sempre com a pedra a marcar posição, em contraste com o brickstyle de Manchester, tão presente em todo o Reino Unido e que é uma bandeira à invenção da revolução Industrial. Até nisso os escoceses teimam em ser diferentes, como se a seguir à união britânica, viesse sempre uma vírgula e um mas.
Entro no South Inch, um dos maiores parques da cidade. Já tinha ouvido falar dele, mas não pensei que fosse a minha primeira paragem. Atravesso-o, pensativo. Quase monótono na biodiversidade e na acidentalidade do terreno, é excelente para uma caminhada introspectiva ou simplesmente para o running diário. Cheguei aqui por acaso e para não me repetir acabarei por evitar o North Inch, o outro grande parque da cidade, onde se travou a batalha dos Clãs em 1396. Talvez tivesse valido mais a pena escolher esse, onde cricket, golf e rugby acabam por dinamizar qualquer passeio. Mas, como sempre, a aleatoriedade incorpora um gozo maior.
Meia hora depois, deambulando entre a letra X que os caminhos do parque perfazem e a rua que lhe serve de perímetro e ainda antes do Rio Tay, encontro um edifício curioso, de uma arquitectura ímpar. Espreito o verde das árvores deste fim de Verão uma última vez antes de entrar, para me aventurar na inesperada descoberta. Redondo, pequeno e sem janelas, numa estrutura protegida por uma espécie de coluna, que se eleva uns quinze metros acima do primeiro piso, sempre em granito, o edifício esconde um interior bem mais generoso: uma exposição de arte moderna, dedicada a artistas do movimento Scottish Colourists, com particular destaque para o pintor escocês John Duncan Fergusson. Gosto destes momentos, em que redimensiono o tamanho da minha ignorância: nunca tinha ouvido dele falar. O movimento de que Fergusson era membro há quase um século atrás, compunha quatro pós-impressionistas que acabaram por influenciar de forma determinante a cultura e arte escocesas, ao misturar a formação, o seu próprio trabalho e aprendizagens locais com as influências que receberam de Monet, Matisse e Cezanne, nas suas passagem por uma França que dava os primeiros passos do que hoje chamamos Globalização, ao unir num mesmo espaço grande parte dos mais importantes artistas de todo o mundo.
Podia passar umas boas duas horas pelas três galerias deste pequeno museu, aprendendo com os seus mais de cinco mil artworks, mas a fome não me permitiu mais do que uma passagem de meia hora, suficiente para ficar com uma boa ideia e apreender uma série de ideias, que ajudam a contextualizar-me na cultura deste país.
Saio do pequeno museu, não sem antes perguntar onde posso comer boa comida escocesa. Volto a perguntar na rua, e confirmo uma terceira vez. Adoro este accent escocês e o timbre com que falam. Seguro, próprio.
Sigo pela rua que ladeia o Rio Tay, assistindo a toda a flora que o acompanha. Começo a mudar a ideia da biodiversidade local quando percebo, entre tantos tons de verde, que até lianas por aqui existem. Serão espécies trazidas por brasileiros, pergunto-me, sabendo que era uma espécie de idiotice para ganhar tempo enquanto consulto a sabedoria infinita do Google para descobrir. Afinal a espécie é muito mais vasta do que pensava. Actuando frequentemente como se duas siamesas se tratassem, a liana está espalhada tanto pelos trópicos, como por grande parte dos continentes e até em alguns desertos. Nunca pensei que fosse tão especial e omnipresente, reconheço, antes de reconhecer o nome na porta do restaurante que me recomendaram: 63 Tay Street.
Entro e fico desapontado com a imagem instantaneamente. A madeira clássica no chão, as cadeiras de veludo vermelho e abat-jours à mesma cor não causam o impacto que espero de quem tem vida própria, de quem tem a atitude de um sabor seu. Três passos depois, o ambiente melhora, à medida que reparo que as janelas generosas viradas para o rio e a vegetação que o contorna transformam o espaço numa espécie de barco ancorado no rio, à espera que nos conte as suas histórias.
Sou recebido de uma forma aberta, quase fraterna. Falam comigo como se fizesse parte deste clã, desta casa. Percebe-se que a comida é mais caseira que em grande parte das casas, que é especial e que é servida com um gosto maior do que aquele que só procura prémios. Acabo por optar pelo menu pré teatro, uma espécie de pré jantar que me permitirá, se encontrar bilhetes, seguir para algum espectáculo a tempo de não me deitar de madrugada. O prato escolhido tinha de passar pelo beef escocês, neste caso acompanhado por uma salada de couve galega e courgette e por um puré que suspeito ser de castanha misturado com batata doce e limão. Uma refeição honesta e despretensiosa, cheia de sabores fortes e autênticos, exactamente o que procurava. Troquei o teatro por uma conversa de quase uma hora com o Chef Pallister, que me falou do restaurante (do qual é dono) e do seu conceito slow food, que acabou por o conduzir a chef do ano em 2013.
— Cozinho com a ambição de criar prazeres únicos nos clientes, ao mesmo tempo que defendo a saúde de todos e o tempo que uma refeição merece para ser saboreada — disse-me, e eu concordei. Fiz mais perguntas do que as respostas que dei, como habitualmente. Mas tive oportunidade de falar do meu Porto, do meu porto de abrigo, e ele reparou o amor que lhe tinha. Falamos desse amor pelas nossas cidades, que acaba por nos criar raízes, sem as quais as viagens que fazemos nunca teriam o valor que têm.
Depois de uma sobremesa generosa, decido deambular três ou quatro quilómetros a pé pelo centro da cidade, antes de voltar à Casa da Partida, na Tay Street. Atravesso a ponte e viro à direita, a caminho do hotel. O Sunbank Metro foi a única marcação que fiz para esta viagem, consciente que não queria estar stressado para a marcação da primeira dormida, e certamente não tinha ainda sensações que me fizessem ter uma melhor opinião do que construí à volta dos enjoativos mas eficazes motores de busca. Estive quase para escolher o Huntingtower, mas os sete quilómetros a pé depois de jantar fizeram-me mudar de ideias. Seja como for, ambos me pareceram excelentes opções e a chegada à casa vitoriana onde dormiria a primeira noite não me fez mudar de ideias: pelo contrário. Autêntico como a casa dos avós de alguém, com os seus quartos todos diferentes e vistas deliciosas sobre o rio, foi o lugar perfeito para um copo de Porto — não aprecio whisky, o que é um desperdício enorme por estas paragens — antes do primeiro e reconfortante sono.
Acordei a pensar que já tenho saudades e que isso é tão bom sinal. Passo os olhos nos grupos de whatsapp e volto a fechar os olhos, atirando o telefone para o lado, sem medo do impacto contra o fino tecido de algodão da generosa cama. Decido investir em mais uma abertura de olhos para descobrir como está o tempo. A temperatura é-me um pouco indiferente, porque sei que nunca fará calor demais, mas gostava de evitar a chuva e de ter boa luz. Cada vez dou mais valor a essa luz que torna os meus dias mais quentes, mais meus.
Acabo por me levantar, desistindo de mais um quarto de hora de descanso. Abro a cortina de uma vez, acabando por ser confrontado com mais luz do que a que consigo tolerar neste momento. Sorrio, consciente de que parece que nunca estou satisfeito. Tomei um banho rápido e desci, com vontade deste Outono que se aproxima. Tenho uma secreta esperança que o buffet do pequeno-almoço não seja um copy paste de tantos outros, como se vivêssemos na geração das fotocópias.
Desço as escadas a ler as notícias no smartphone, como se fosse capaz de adivinhar o caminho sem o ver, só com a visão periférica. No Porto começou a Feira do Livro, da qual eu tanto gosto, talvez pelas boas recordações que sempre me provoca. Lembro-me de lá trabalhar, empoleirado no stand da editora da família, orgulhoso, do alto dos meus treze anos. Mais cedo do que esperava encontro a sala do pequeno-almoço e fico instantaneamente feliz: nada de panquecas, muffins, quiches ou bagels, e definitivamente nada de omeletes. Eu adoro por exemplo panquecas, mas não estou a fazer surf na Califórnia e portanto o que quero é experimentar um pequeno-almoço igual ao que os escoceses tomam. Olho para as mesas, curioso.
A oferta de sumos naturais é particularmente generosa, ao lado de uma taça cheia de Weetabix. Há vários tipos de iogurte, de cereais e de fruta, e reparo que muita gente tem à sua frente uma chávena de chá e um prato com papa de aveia. Peço o mesmo, sem hesitar. Perguntei o que era típico e acabei por receber um prato com meio tomate cozido, revestido com queijo quase fundido, cogumelos salteados, uma salsicha quase alemã com bacon fino e elegante, feijão, tattie, dois ingredientes que sou incapaz de reconhecer e uma fatia de black pudding. Comi o que pude e saí, para descobrir finalmente a cidade de Perth. Vou a pé, sem planos sequer do que quero conhecer. A única ideia que persigo é deixar-me surpreender pelo destino e pela cidade e conhecer de uma forma natural como vivem, pensam e agem as pessoas que por cá moram.
Passo o dia a deambular aleatoriamente pela cidade, cruzando as três únicas pontes que juntam as margens do Rio Tay, entrando por minutos na St Mathews Church, espreitando a fair made of Perth de Ibbeson, que homenageia uma das principais obras do escritor escocês Sir Walter Scott. Acabo por entrar também na mais antiga construção da cidade: o St John´s Kirk, onde John Knox discursou há quase meio milénio atrás. Pelo caminho, fui parando nas pequenas lojas que aparentavam ter um sabor próprio, um aroma único. Uma delas foi a Provender Brown, que fica em frente à “La lanterna”, um restaurante italiano governado por uma família da Sicília e onde tive oportunidade de almoçar. O Provender Brown é uma espécie de mercearia fina especializada em produtos escoceses, onde se pode experimentar queijos, uma variedade quase infinita de salmão escocês — que não posso deixar de recomendar — e até gin e vodka nacionais, no meio de centenas de produtos de origem marcadamente local.
Continuo a passear pela cidade, que é ainda mais pequena e pacata do que antes imaginara. São sítios assim, onde muitas marcas internacionais não têm tanto interesse em estar, que nos permitem conhecer melhor as pessoas, as vidas, os hábitos e a cultura do ecossistema local. Também me dá tempo para pensar, sobre tudo e sobre nada. O Verão passou a correr, depois daquele início prometedor em que fomos a Paris ganhar o Europeu. Sorrio, arrepiado mais uma vez.
As lojas fecham às cinco, o que até é bom, permitindo-me recolher cedo ao hotel e preparar uma jornada única para amanhã: uma viagem de balão, que começa ainda antes de nascer o Sol.
Recolho ao hotel, onde tenho finalmente algum tempo para ler o livro que trouxe, de Alexievich. Tinham-me dito que finalmente tinha deixado as guerras e as tragédias, para se concentrar no amor, ainda para mais numa versão pouco trágica. Não acreditei e ainda não acredito. Acho que há alguma ironia subentendida nestas palavras, mas a verdade é que ainda não consegui ser o Fleming da literatura e descobrir as Eurekas escondidas atrás da prosa evidente de quem sabe pensar mais.
Acordo às quatro e meia da manhã, metendo-me quase instantaneamente no duche, com medo de ceder ao sono profundo. Os melhores passeios de balão são ao nascer do Sol, não só pela paisagem fantástica, mas sobretudo pelos menores índices de poluição no ar. Mesmo aqui, nas portas do paraíso verdejante que é a Escócia profunda.
A experiência começa muito antes do balão subir, com todo o grupo a preparar a viagem, enchendo o balão, que está pousado, deitado, num campo completamente livre de árvores e fios eléctricos. Há uma brisa ligeira no ar, tão fresca e pura que nos faz apetecer este Outono que está às portas, como se o sol maravilhoso do Verão só valesse a pena por não estar disponível todo o ano.
Levantamos voo de forma sublime, com a elegância de quem dispensa motorizações para se agigantar num céu de beleza única. Ao meu lado, as duas alemãs com um cabelo de um louro que não engana, estão de mãos dadas, trémulas de medo. Rio-me, descontraído, para as acalmar. Estamos com os corpos comprimidos uns contra os outros, neste cesto com ar primitivo, mas que todos esperamos seguro. O monitor vai explicando que se lhe acontecer alguma coisa temos de ser nós a pilotar, apontando para o iPad que tem uma app semelhante ao Google Earth (mas com altímetro), gracejando a necessidade de leitura rápida de um wizard de “como aterrar um balão de ar quente”.
– “Hamburgo?” – pergunto à loura mais perto de mim, que se esforça para nunca olhar para mim, simplesmente porque estamos perto demais.

– “Berlim” – responde-me num sorriso tímido, disfarçando o nervosismo. A amiga olha para baixo com um ar simultaneamente aterrador e curioso, como se estivesse num planeta distante, prestes a ser devorada por um monstro amarelo às riscas, mas ainda assim quisesse ver a cor da língua.
Sabia que o sotaque não era de Berlim, mas não era o momento de discutir tal pormenor. Continuei a conversa, num alemão quase irrepreensível, e a Hannah lá me respondia, mais solta, mas quase sem olhar para mim. Não sou particularmente extrovertido, mas esta timidez tão ligeira e tão imensamente natural atraiu-me de imediato. Quando aterramos, já só queria continuar lá em cima.
Saímos e aproximou-se um rapaz de pele clara, que vim a descobrir ser o namorado da amiga dela. Suspirei em silêncio para mim, com a esperança a manter-me completamente acordado e alerta, procurando em simultâneo manter a conversa viva, sem ser forçada. Será que falta o namorado da Hannah também? Tipo, será possível terem dois namorados tão pussies que nenhum é capaz de as acompanhar numa dócil viagem no ar, que podia ser tão romântica?
A organização sentou-nos em mesas corridas, para celebrar a viagem com champagne, ainda antes do “pequeno-almoço real” que estava incluído no programa. Foi a desculpa perfeita para ficarmos juntos, começando uma conversa muito mais normal e fluída a quatro. Em terra, as alemãs passaram a normais, deixando a flutuar lá em cima a timidez que pensava caracterizá-las. Falamos um pouco sobre as nossas viagens e origens e acabamos por partilhar os planos para os próximos dias. Eles os três tinham previsto ir para Alberfeldy, junto ao Tay Forest Park e ao Loch Tay, um lago que se diz ser maravilhosamente calmo, sítio perfeito para uma série de actividades interessantes. Eu partilhei a minha ideia para os próximos dias:
– “ Dunkeld e Pitlochry, embora na realidade não tenha planos muito definidos. Não tenho itinerários , dormidas reservadas ou planos que não possam ser mudados”
– “Podias vir connosco” — diz a Emma, tranquilamente, olhando para o Noah, que acena afirmativamente, aparentemente de forma genuína. Depois, olha para Hannah, que faz um gesto afirmativo, como se lhe fosse um pouco indiferente, acrescentando:
– “Temos o glamp alugado e dá para quatro pessoas. Era bem mais giro, podemos aprender um pouco desse mundo latino de que tanto falam. Além disso, precisamos de outro homem em todas aquelas actividades lá no lago. É que o Noah quer fazer dez mil actividades em cinco dias e imaginou que nós somos um grupo de desportistas radicais disponíveis para tudo”, remata, perante os sorrisos de todos.
– “Radicais?” – pergunto — “ e então porque não foi na viagem de balão?”, acrescento a rir-me.
– “Demasiado calmo” — responde ele instantaneamente – gerando o riso compulsivo das da namorada e da Hannah.
– “Tem medo das alturas” — responde a Emma — “ a menos que seja eu a fazê-lo subir”.
Rimo-nos todos, como se fossemos amigos há algum tempo. Começamos a discutir qual dos percursos seria melhor, e embora me apeteça imenso ir com eles porque a companhia francamente promete — e não é só pela Hannah — não me sinto preparado para ficar preso numa casa de montanha que posso amar ou apenas gostar moderadamente. É que o único plano era não ficar preso em plano nenhum.
Partilho isto com eles, procurando argumentos para os atrair para uns dias mais variados, falando não só no Scone Palace, como nas prometedoras destilarias de Pitlochry. Falei das escadas de salmões, um sítio mágico onde estes peixes saem da presa e nadam em contracorrente até ao Loch Fascally, o lago onde se dá a migração anual. Podia também falar do Bosque Encantado, o espectáculo de luz e cor do bosque junto ao lago, mas sei que tal só acontecerá em Outubro, quando as folhas começam a cair e a fazer um manto especial, iluminado nesta festividade que não chega a ser festa, mas que promete ser um momento único para todos os que por lá conseguem passar.
O Noah não parece muito impressionado, certamente mais interessado nos desportos que o trouxeram até estas paragens. Vai acenando, enquanto encena uma resposta que mantenha a Emma interessada no plano original. A Hannah está com um brilho nos olhos, parecendo genuinamente interessada em partir à descoberta destas paragens no formato que eu vou defendendo. Explico que a minha ideia é, na parte da tarde, ir comprar uma bicicleta usada, até porque já vi vários anúncios no Gumtree a menos de oitenta libras que cumprem os requisitos necessários. Deixarei a mala no hotel de Perth e partirei apenas com uma mochila e roupa básica para três dias. Se não chegar, compro mais, como faço sempre.
– “Adoro a ideia de comprar uma bicicleta usada, cheia de histórias próprias e ir fazer a nossa própria História por aí” — diz Hannah, entusiasmada.
– “Porque é que não vão vocês os dois ter connosco ao lago, nos últimos dois dias, e fazemos glamping a quatro até descermos todos para Edimburgo? Assim até podemos namorar melhor em Alberfeldy enquanto vocês descobrem a pradaria e nos fazem um álbum de fotografias para mais tarde recordar…” — propõe a Emma, que merecia não um busto mas uma estátua completa. E, de repente, todos parecem felizes com a decisão .
– “Mas guardam o passeio pelos Birks of Aberfeldy para quando chegarmos” — responde Hannah.
– “Tu sabes o que é namorar, amiga? “ — pisca-lhe o olho Emma “ Vai-se cansar qb no lago e depois não saímos do nosso glamp nem um segundo, até ao cansaço final” , continua, perante o sorriso de todos. Noah parece aliviado e eu estou a gravitar levemente entre a felicidade e o delírio.
Satisfeitos com o upgrade das nossas viagens, saímos dali para ir ao supermercado fazer as compras para os próximos dias. A Hannah chamou-me para a frutaria e perguntou-me:
– “De que é que tu gostas, Marco Polo?”,
– “ De ti, suponho” — respondo, num sorriso que imagino ser aberto e natural.
– “ Supões? “ – pergunta, levantando as sobrancelhas num sorriso generoso — “ é que eu tenho a certeza que gosto muito”
– “De mim?”
– “Não, de mim” — responde, soltando uma gargalhada
– “Relaxa, vai ser uma viagem de novos amigos”
– “ Eu sei, latino” — responde, baixando-me o cap -“estou tranquila”.

Não sei se é uma viagem imaginária à Escócia profunda, se é uma viagem profunda à Escócia imaginária. Sorrio com o meu pensamento, o que não me impede de me beliscar levemente, para cumprir o ritual de um sonho vivo. Sinto-me, antes de fechar os olhos para dar um lugar maior ao sonho. Olho para o sorriso dela mais uma vez e dou-lhe a mão, ainda não literalmente, antes de fechar a escrita para ir viver.

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