Daniel Rodrigues: Sou um contador de realidades

Daniel confessa que o World Press Photo mudou completamente a sua vida. O fotojornalista desempregado, “que tinha vendido o equipamento fotográfico para fazer face às despesas, hoje colabora com o The New York Times. E só lhe falta cumprir um dos seus sonhos como profissional: viajar por África e colaborar com a National Geographic.

“Não me considero obcecado, mas todo o tempo que tenho livre é para fotografar. Já não tenho férias há cinco anos. Para fazer uma viagem a Moçambique, por exemplo, deixei de sair à noite durante sete ou oito meses, para não gastar dinheiro, e acabei por fazer trabalhos de que gostava menos”.

 

Em 2013, a meio de um dia particularmente cinzento e acelerado, os meus olhos ficaram presos numa fotografia a preto e branco. Detive-me a olhá-la, e alinhei o meu batimento cardíaco com o daquela imagem, onde algumas crianças jogavam à bola como se todo o mundo fosse aquele momento. E era. As pequenas nuvens de poeira, levantadas pelos seus pés urgentes, davam-lhe um ar quase etéreo. Havia um golo preso na boca de um deles e uma vitória no título da notícia que ela ilustrava: um português tinha ganho o World Press Photo (WPP), um dos mais prestigiantes prémios mundiais. Ironia ou poesia do destino: estava desempregado e tinha vendido todo o seu equipamento fotográfico para fazer face às despesas. Hoje colabora com o The New York Times.

 

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Daniel Rodrigues vive na Póvoa, é fotógrafo freelancer, tem 28 anos e uma simplicidade desarmante. A fotografia é uma história de amor à primeira vista, alimentada pela mãe e pelo tio, desde sempre. No dia em que recebeu de oferta um livro do Sebastião Salgado teve a certeza que a vida se faria atrás de uma lente. Diz-me que os fotógrafos vêem o mundo com outros olhos. “Eu vejo”, começa por dizer à El Mag. Acredito que vejo coisas que outras pessoas não vêem: aquela luz incrível num determinado momento, aquele ângulo ou perspectiva. Estou mais atento, com os sentidos mais despertos. E imagino sempre uma fotografia que tente mostrar o mundo da forma que eu o vejo.”
No primeiro dia do curso de fotografia, concluído em 2008, no Instituto Português de Fotografia, anunciou os seus cinco sonhos: ser fotojornalista, trabalhar para o Jornal de Notícias, ganhar o World Press Photo, trabalhar para o The New York Times e colaborar com a National Geographic.

Em 2012 cumpriu um dos seus objectivos ao integrar uma missão humanitária, durante um mês, na Guiné-Bissau. “Demorei seis, sete meses a preparar a viagem. Na altura, trabalhava na Global Imagens, tirei um mês de férias para integrar aquela missão. Adorei a experiência. Além das fotografias, trouxe de lá uma outra forma de valorizar a vida e as pequenas coisas.”
Depois de uma passagem pelo Correio da Manhã e pela Global Imagens, no final de 2012 integrou os números do desemprego. Sem perspectivas, vendeu o equipamento fotográfico “para conseguir sobreviver”, guardou os sonhos na gaveta e procurou emprego noutras áreas. “Qualquer coisa, dentro ou fora do país.”
Em 2013, uma das fotografias que tirou na Guiné, em Março de 2012, valeu-lhe o primeiro prémio do World Press Photo, na categoria “Vida Quotidiana”. A magia talvez se esconda na simplicidade do instante. A imagem retrata um grupo de jovens, na aldeia de Dulombi, a jogar à bola num campo de futebol improvisado num terreno que, no tempo colonial, foi ocupado pelo exército português. Observou-os, interagiu e jogou com eles. O momento em que captou aquela foto foi só seu, diz, mas a foto passou a representar esperança — a sua e a de um país. “Existem milhares de talentos nas caixas de supermercado. Aquela foto, por toda a história que tem por trás, representa uma esperança.”
Até esse dia, a foto não tinha sido publicada em nenhum jornal porque ninguém quis comprar o trabalho. Daniel recorda, com um misto de ironia e humor, o dia da atribuição do prémio. “Alguns jornais publicaram a notícia do prémio sem incluir o meu nome entre os vencedores. Um amigo, que reparou, contactou-os e esclareceu a omissão, acrescentando que, inclusive, se tratava de um fotojornalista desempregado que tinha vendido o equipamento fotográfico para fazer face às despesas.” E foi este o pormenor que despertou a atenção dos jornais, acrescenta. “Infelizmente, as pessoas gostam da história do coitadinho. Se eu não estivesse desempregado, ninguém sabia que tinha ganho o World Press Photo.”
Contrariando a ideia de que nunca se deve voltar onde se foi feliz, no final de 2013, regressou para oferecer impressões da foto às crianças retratadas e à escola de Dulombi. Envolvimento é a palavra que escolhe para descrever a sua relação com o que faz.

 

O terceiro melhor fotojornalista de 2014…

Em 2015, chegaram mais 15 prémios, entre eles o que lhe abriu as portas para uma carreira internacional: foi eleito o 3.º maior fotojornalista do mundo (POY – Picture of the Year). Em Portugal, quase não se falou no assunto. “Ninguém falou nisto porque eu já não estou desempregado”.
Continua a viver na Póvoa, o seu “refúgio”, mas a sua lente já registou as cores de cerca de 30 países. Destaca as três semanas passadas na Amazónia, com a tribo indígena Awá, como uma das experiências mais enriquecedoras, pelo regresso ao essencial.
Num registo mais documental, na Tailândia, registou as vidas dos ladyboys — ou terceiro género —, acompanhando, de perto, as realidades da prostituição. Não foi fácil ganhar-lhes a confiança, mas a sua persistência levou a melhor. Uma vez mais.
Susan Sontag, nos seus Ensaios sobre a Fotografia (Quetzal, 2012), defende que fotografar é apropriarmo-nos da “coisa” fotografada. Uma fotografia não é apenas o resultado de um encontro entre o fotógrafo e um acontecimento; fotografar é em si mesmo um acontecimento, cada vez com mais direitos: o de interferir, ocupar ou ignorar tudo o que se passa à sua volta.
Daniel assume, categoricamente, que nunca se sente um invasor ou um outsider. Nunca teve um momento de dúvida quanto à publicação de fotos que retratam outras vidas. “Sou um contador de realidades. As fotografias que tiro têm que ser vistas, as realidades têm que ser mostradas, para o bem e para o mal. “

 

O fotojornalismo, defende, pode salvar vidas e mudar o mundo. “O fotojornalista, hoje em dia, tem o papel de passar uma mensagem, de alertar mentalidades. A foto [de Nilüfer Demir] da criança refugiada [Alan Kurdi, três anos] morta na praia, não seria conhecida se não tivesse havido um fotojornalista a mostrá-la ao mundo. Não basta mostrar-se barcos cheios de pessoas, é necessário mostrar que morrem milhares de pessoas, incluindo crianças.” A este propósito, recorda “Bang-Bang Club” (de João Silva e Greg Marinovich), que retrata, entre outras, a história do premiado fotojornalista sul-africano Kevin Carter, que ganhou o Prémio Pulitzer (1994) pela autoria de uma foto que retrata, de forma brutal, a fome no Sudão, em 1993: uma criança faminta e um abutre que a observa. Alvo de imensas críticas, Carter acabou por se suicidar aos 33 anos de idade.
“Mesmo que não tenha salvo aquela criança, salvou milhões de pessoas e mudou a história de África. Ninguém sabia que havia fome em África naquela altura, e foi com aquela foto que o mundo passou a saber. Estas fotografias têm que ser mostradas. Várias vezes. É esse o poder de uma fotografia e do fotojornalismo.”

 

 

 

Daniel é crítico em relação ao país que não sabe cuidar dos seus talentos, e que continua, em muitos casos, a empurra-los para fora de portas, preferindo quem chega de fora. “Não é fácil viver do fotojornalismo em Portugal. Era complicado em 2013 e continua a ser hoje. Não há respeito pelos profissionais desta área. Hoje, a trabalhar muito no estrangeiro, tenho ainda mais consciência disso. Em termos financeiros é onde se sente a maior diferença: noutros países pagam-nos o acordado, e, muitas vezes, se o trabalho ficar bem feito, ainda pagam um bónus. Cá, tenho que andar atrás das pessoas para me pagarem. Cá, muitas vezes, não respeitam as características das fotos e publicam-nas sem ter atenção a alguns pormenores. Lá fora, já me aconteceu terem que cortar meio centímetro de uma foto, para a colocarem na capa, e não o fizeram enquanto não dei o meu consentimento. Em Portugal, continua a preferir-se estrangeiros para fazer alguns trabalhos, porque ainda há a mentalidade de que os portugueses não são suficientemente bons. “

… continua a “fazer contas à vida”

Daniel confessa que desde o World Press Photo mudou tudo. A nível pessoal e profissional. “Eu adoro o que faço — hoje em dia quem é que faz aquilo de que realmente gosta? Poucas pessoas —, mas não tenho vida pessoal, e esse é o lado negativo. Tenho muito trabalho, mas não sou rico — como algumas pessoas pensam. Continuo todos os meses a fazer contas à vida. O World Press Photo deu-me a conhecer, mas as grandes oportunidades surgiram com o POY (Prémio Picture of the Year, 2014). Quando ganhei o WPP não tinha nada para mostrar, não tinha trabalhos. Tive sorte, sim, mas não desisti, e aproveitei aquela oportunidade para apostar em mim. Com o POY é diferente, foi o reconhecimento de um ano de trabalho e o aparecimento das grandes oportunidades.’
Conjuga sonhos com um brilho infantil na voz que se enche de orgulho para se dizer realizado, focado e com as prioridades bem definidas. Há quem o considere obcecado com o trabalho. Justifica: “Não me considero obcecado, mas todo o tempo que tenho livre é para fotografar. Já não tenho férias há cinco anos. Para fazer uma viagem a Moçambique, por exemplo, deixei de sair à noite durante sete ou oito meses, para não gastar dinheiro, e acabei por fazer trabalhos de que gostava menos. Tenho prioridades. Algumas pessoas não têm noção do trabalho e esforço necessários para conseguir o que eu tenho hoje.”
Lamenta tudo aquilo que ainda não fez e teme perder a criatividade e as ideias para novos trabalhos. Dos cinco sonhos anunciados no 1.º dia do curso de fotografia, já só lhe falta realizar um: viajar por África e colaborar com a National Geographic. “Já faltou mais do que o que falta. Pode demorar um mês ou pode demorar um ano. Não estou preocupado.” Entretanto, acrescenta, sorrindo, “a lista de sonhos vai crescendo. Ainda há tanto por fazer! Quero ser um dos melhores do mundo.”

 

O sorriso generoso do Daniel voa alto — tão alto quanto este percurso feito de querer e vontade — e eu lembro-me de uma frase do valter hugo mãe: “Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende” (O Filho de Mil Homens, Alfaguara). Tenho ainda dúvidas que a pátria lusa tenha chão para quem sonha grande. Talvez um dia a realidade aprenda.

 

danielrodrigues

“Primavera”, de Ludovico Einaudi, é a banda sonora que elege para a foto vencedora do World Press Photo e, já agora, para a sua vida. Foi a música que ouviu em momentos piores e a que acompanhou a sua subida ao palco, na entrega do prémio.
Mallarmé, o mais lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo o que existe no mundo existe para vir a acabar num livro. Hoje em dia, tudo o que existe, existe para vir a acabar numa fotografia.
Susan Sontag

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