Dieta alcalina: equilíbrio? Isso! Privação? Não!

Aquilo que ingerimos dita aquilo que somos. É por isso que devemos usar e abusar de frutos e legumes biológicos. Estimados leitores, bem-vindos à dieta alcalina.

O nosso corpo olha-nos de lado. Chateado. Não se sente bem. Fala connosco, insiste, e, vezes sem conta,  ignoramos a sua insistência. Fazemos ouvidos moucos, ignoramos os nossos sentidos e continuamos em frente, ou melhor, continuamos erradamente em frente. Mas o nosso corpo é altruísta — consegue ir até ao supremo da moralidade — e não se cansa em insistir. Insiste, insiste, até que finalmente — e por vezes necessariamente — corpo e alma entram numa relação síncrona, endireitam ombros,  olhares confiantes,  dão as mãos, sorriem e, agora sim, seguem pela trilha de uma vida saudável — uma vida mais alcalina —, vestidos apenas com a leveza e o conforto que há dentro deles. Com amor, pois o amor nunca é pecado. Só a falta dele.

Quando ouvimos a palavra “dieta” o nosso corpo reage negativamente, porque imediatamente o nosso cérebro escreve em letras grandes e a negrito, algures na nossa consciência, a palavra “privação”. A palavra “dieta” tem uma conotação pejorativa e, no sentido mais lato da palavra, ela é nada mais nada menos do que aquilo que comemos todos os dias. Bem ou mal, aquilo que ingerimos resume-se à nossa dieta alimentar. Bem ou mal, aquilo que ingerimos dita aquilo que somos.

 

 

 

A palavra “dieta” tem uma conotação pejorativa e, no sentido mais lato da palavra, ela é nada mais nada menos do que aquilo que comemos todos os dias.

Créditos: Joana Leitão

O ser humano comete diversos erros, mas o mais grave é, sem dúvida, o de não se alimentar adequadamente. Comemos demasiado, comemos os alimentos errados e comemos às horas erradas. Consumimos em demasia alimentos industrializados que contêm alta concentração de gordura, açúcar e sódio. Alimentos vazios nutricionalmente — privados de toda a nutrição através do processamento, antes mesmo de chegarem à nossa mesa —, que nos reconfortam a alma mas prejudicam o nosso bem-estar; alimentos que provocam o excesso de acidez no nosso corpo, tanto pela quantidade que comemos como pela forma como os comemos. Nossa culpa! Vivemos diariamente com as inquilinas mais perigosas para o nosso organismo: as toxinas — chatas, nocivas e irritantes; que o nosso corpo, inteligentemente, se esforça para libertar, sacrificando outras funções. Acidez e toxicidade vivem numa simbiose perfeita. Cabe-nos a nós anular essa ligação tão íntima. Para nosso bem!

 

Como sair do lado ácido da vida?

 

Estimados leitores, perguntem à dieta alcalina. Mas, sussurramos já, para não se assustar, que a palavra de ordem é equilíbrio.

Para começar um pouco de Química. O valor do ph — potencial de hidrogénio — do corpo humano deve manter-se num intervalo estreito, compatível com a vida, principalmente o pH do sangue, que deve manter-se rigorosamente entre o pH 7,35-7,45, ligeiramente alcalino. Ora, o nosso organismo é uma máquina quase perfeita e autoregula-se, consegue eliminar os ácidos que tem a mais; mas, e há sempre um mas, o importante é não o deixarmos abandonado, pois ele cansa-se e, um dia, bem furioso, abandona-nos a nós. Trabalhar em equipa é a linha mestra desta dieta alimentar. Mais importante do que a seguirmos é termos a noção dos seus benefícios. Nós, vontade, atitude, disciplina, motivação e amor ao nosso corpo são a conjugação harmoniosa para que a nossa vida brilhe, mais ainda.

Dieta alcalina: equilíbrio? Isso! Privação? Não! - bio-e-natural

Esta dieta alimentar consiste, sumariamente, em corrigir o pH do corpo, evidenciando o consumo de alimentos que têm, supostamente, reacções alcalinizantes no organismo. Uma alimentação equilibrada, com base em alimentos alcalinos ajuda a prevenir doenças — como a osteoporose, a diabetes, problemas de pele, cancro e outras —, a reforçar o sistema imunitário , a eliminar toxinas e também peso, tudo com base no equilíbrio ácido-alcalino, o chamado pH. Muitos profissionais da área da nutrição não consideram esta dieta uma “dieta da moda” — visto ser seguida por várias musas da sétima arte —, mas sim uma “dieta para a vida”. Stephan Domenig, médico, com experiência clínica de vinte e um anos e director do insigne F.X. Mayr Health Center — conhecido como o “spa mais transformador do mundo” —, escreve num dos seus livros : “A cura alcalina é um modo de vida, não uma simples desintoxicação.” Homem irrequieto e inconformado não quis ficar só pelas “doenças e mal-estares de um ponto de vista genético ou bioquímico”, apostou numa formação específica em teoria Mayr e enveredou, a partir de então, por uma vertente mais holística da vida — a beleza de todo o corpo —, preferindo descobrir “a alma de uma doença” — por que as pessoas podem ou não ser saudáveis; conhecer as causas, não tratar os efeitos. No mesmo livro — “A Cura Alcalina” —, Domenig encoraja-nos a seguir este tipo de dieta —  “… se reduzirmos o consumo de alimentos formadores de ácidos (…) e os substituirmos por alimentos mais alcalinizantes, podemos dar os primeiros passos para mudar a nossa saúde”. Para ele, uma dieta equilibrada é o “ … simples rácio 2:1 em termos de alimentos alcalinos para ácidos (…) e se estabelecer um equilíbrio positivo entre exercício e descanso.” Robert O. Young, naturopata, acérrimo defensor da dieta alcalina e autor do livro “O Milagre do pH” — editado em 2002 e reeditado com revisão de conteúdos em 2010 —, baseia a alimentação no tipo de água que devemos ingerir, afirmando que “… a água alcalina e/ou ionizada seria uma bebida eficaz para desintoxicar e revitalizar o nosso corpo.”. Para que as pessoas percebam melhor a importância do pH, metaforicamente chama-lhe Perfectly Healthy. 

Vivemos diariamente com as inquilinas mais perigosas para o nosso organismo: as toxinas — chatas, nocivas e irritantes; que o nosso corpo, inteligentemente, se esforça para libertar, sacrificando outras funções.

 

Olhando agora para as opiniões dos nossos, a nutricionista Rita Boavida – autora do livro “O Fator pH” –, é da opinião que “Quando há um desequilíbrio [ácido-alcalino] no organismo devido a um excesso de ácidos, os órgãos e os tecidos internos são sujeitos a um esforço extra para manter o pH do sangue nos valores estáveis. Ou seja, o corpo enfraquece, desequilibra, inflama e envelhece, tornando-se mais vulnerável a muitas das doenças crónicas (…)”. Ana Bravo, nutricionista e autora de diversos livros de nutrição, tais como “Saúde no Tacho” e “Dieta Viva!”, no seu blog “Nutrição com Coração” (artigo “O ‘pH’ da água”) abre os nossos horizontes para as capacidades dos alimentos e escreve  “ … todas as frutas e hortícolas e a generalidade das águas minerais (incluindo a da torneira) têm um ‘potencial alcalino’, enquanto que todos os produtos de origem animal (carne e derivados, lacticínios, pescado e ovos), açúcar e alimentos açucarados, bebidas alcoólicas, café e chá, leguminosas, frutos gordos e sementes, cereais e derivados (excepto quinoa, batata e batata-doce) têm um ‘potencial ácido’.” A também nutricionista, Eva Neves de Carvalho, que colabora com o espaço Bio & Natural, referiu ao El Mag que “ … este tipo de dieta deveria ser seguido por todas as pessoas, isto porque há um maior consumo de alimentos saudáveis, como frutas e legumes. Em relação a estes alimentos devem ser sempre biológicos, uma vez que não têm fertilizantes, pesticidas e outros produtos químicos.”

Vamos às compras? Vamos …

 

Que alimentos devemos, então, preferir colocar no nosso carrinho para uma dieta equilibrada, para uma dieta tendencialmente alcalina? Alimentos frescos, da época, locais e da melhor qualidade devem ser privilegiados; os alimentos têm sempre um maior valor nutricional quando provêm da terra mais perto de nós; em conclusão, os alimentos biológicos — isentos da grande maioria dos químicos (pesticidas ou fertilizantes, antibióticos, hormonas de crescimento ou aditivos alimentares) presentes nos alimentos ditos “normais”, além de terem a grande vantagem de não serem geneticamente modificados. Entretanto, se ler livros (e afins) regularmente engorda a nossa cultura, ler e interpretar os rótulos dos alimentos emagrece a nossa vontade de adquirir aquilo que pode prejudicar a nossa saúde, saber decifrar um rótulo pode fazer toda a diferença. E faz! Os químicos escondem-se e estão disfarçados sob a forma de E’s, são quase códigos indecifráveis para a maioria dos consumidores. Os alimentos biológicos são os únicos a poderem ostentar o símbolo/logótipo da UE de “Agricultura Biológica” — o Eurofolha, que nos indica (entre outras coisas mais) que pelo menos 95% dos ingredientes do produto foram produzidos em modo biológico. O amor ao nosso corpo e à natureza exige um trabalho diário, consciente e atento, e aliar o consumo de alimentos que não causem “ruído” no nosso organismo e na natureza será a nossa quota de altruísmo responsável. A alma agradece e o mundo também.

 

 

Uma alimentação equilibrada, com base em alimentos alcalinos ajuda a prevenir doenças, a reforçar o sistema imunitário, a eliminar toxinas e também peso, tudo com base no equilíbrio ácido-alcalino, o chamado pH.

Créditos: Joana Leitão

A ciência diz-nos que os produtos biológicos são alimentos de maior qualidade, mais ricos em minerais e anti-oxidantes, e que são também alimentos mais seguros. Respeitam o ritmo da natureza e estão em harmonia com a mudança de estações. Quem não se lembra da alegria que sentíamos quando tínhamos na mão produtos que só saboreávamos em determinadas épocas do ano? Há coisas que a tecnologia, por muito que caminhe a passos largos, nunca conseguirá mudar, pelo menos enquanto houver pessoas que mantenham o ritual de comprar produtos de forma saudosista. Por exemplo a castanha (apesar de acidificante, traz benefícios nutricionais — pertence ao grupo das oleaginosas — e deve ser consumida com critério), o seu cheiro — vindo das “carripanas” que ocupam algumas esquinas das ruas — e o seu sabor transportam-nos para a infância, para aquele momento em que nos lembramos dos dias em que ainda se apregoava “quem quer quentinhas e boas”. A mudança de estações é feita com coragem, ânimo e vigor; mentalmente dizemos “até para o ano, querido Verão; olá de novo, lindo e melancólico Outono”. Usar e abusar dos alimentos sazonais é, portanto, um excelente princípio, pois eles adaptam-se às nossas necessidades. Os legumes mais “aconchegantes” e compactos abundam no Inverno, porque o nosso corpo precisa de energia para se manter quentinho; os mais frescos e leves surgem no Verão, têm mais água, protegem-nos contra o calor. Outros alimentos conservam-se durante o ano inteiro, como as batatas, porque são uma boa base da alimentação. Portanto, voltando ao nosso carrinho de compras, devemos usar e abusar de frutos e legumes biológicos; as carnes, preferir as biológicas, mas o seu consumo deve ser moderado; ele estará mais aromatizado, fresco, colorido e saudável, e a saúde comprometida, no bom sentido, claro!

Em conclusão …

 

Mantenha-se atento, não seja fanático. Para poder aumentar a sua alcalinidade não sugerimos que coma apenas alimentos alcalinos (os alimentos que originalmente são ácidos, podem ter uma acção alcalinizante no nosso corpo, como é o exemplo dos citrinos). O melhor equilíbrio entre elementos alcalinos e ácidos é de duas partes alcalinas para, no máximo, uma parte ácida. Relembramos a frase que escrevemos algures atrás: “O ideal é que o rácio 2:1 esteja presente em todas as refeições”. O objectivo é comermos alimentos que saibam bem, que se complementem uns aos outros e que sejam de fácil digestão para o nosso corpo, maximizando assim o seu desempenho. Por outras palavras, alimentos que tornem o nosso organismo saudável. Precisamos de voltar a comer de forma natural, voltar a consumir alimentos orgânicos da época.

Os alimentos biológicos são os únicos a poderem ostentar o símbolo/logótipo da UE de “Agricultura Biológica”.

 

 

 

 

Precisamos de voltar a comer de forma natural, voltar a consumir alimentos orgânicos da época.

 

Créditos: Mónica Pinto

É importante ressaltar que cada pessoa possui um ADN próprio e factores isolados que irão interagir com a bioquímica do sangue, porém, a rigor, se regularmos o consumo dos alimentos acidificantes, privilegiando os alcalinizantes, certamente estaremos a contribuir para uma melhor qualidade de vida. Contudo, nem todos concordam sobre a utilidade de uma dieta alcalinizante.  Como muitas vezes acontece, em nutrição e saúde há discordância entre os próprios especialistas. Cada um, portanto, é livre de escolher o caminho que o faz sentir melhor e mais saudável. Mas desde logo se percebe que pelo menos alguns dos conselhos da dieta alcalina são benéficos para a saúde humana, auxiliando na perda e manutenção do peso saudável e garantindo a presença de alimentos ricos em anti-oxidantes: consumo abundante de frutos e vegetais biológicos, ingestão adequada de água, abolição dos açúcares refinados, do álcool e de comidas processadas.  “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”, já dizia Hipócrates (460 a.C. a 377 a.C.) , o mais célebre médico da Antiguidade.

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