3D na moda: os robôs já começaram a trabalhar

Estamos cada vez mais perto de usar roupa e calçado produzidos totalmente por robôs. A automatização pode reduzir a exploração laboral, mas também pode acabar com o emprego. Vem aí uma nova revolução industrial.

Como será o futuro da manufactura na indústria da moda? Este é um cenário em constante evolução que, quase certamente, envolverá fortes melhorias na personalização e customização de peças, maior velocidade no mercado e maior automatização e flexibilidade. Muitas empresas acreditam que este é o momento certo para investir em inovação tecnológica, e esta estratégia poderá ser decisiva no sucesso dos seus negócios nos próximos anos.

No que diz respeito a confeccionar peças de roupa complexas e delicadas, nomeadamente de alta-costura, a habilidade da mão humana continua a ser incrivelmente superior e mais valorizada comparativamente às capacidades das máquinas. No entanto, como em todas as grandes indústrias, têm-se verificado grandes inovações na indústria da moda, e a rapidez e eficácia das máquinas, além de indiscutível, começa a tornar-se cada vez mais indispensável. Grande parte do processo de produção já está automatizado e é realizado por máquinas especializadas, capazes de executar várias tarefas, desde a selecção dos materiais ao corte dos tecidos e outras mais simples, como costurar botões e bolsos. No entanto, apesar de todas as inovações bastante avançadas na indústria do vestuário, e com excepção de algumas peças produzidas especialmente para atletas na última edição dos Jogos Olímpicos, ainda não existem nas lojas peças completamente produzidas por máquinas e robôs.

 

O recurso a impressoras 3D parece ser a chave para o desenvolvimento e inovação, constituindo um factor comum a ambos os sectores – calçado e vestuário.

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Mas na área do calçado desportivo, por exemplo, os avanços alcançados pela indústria permitiram a algumas marcas, líderes do sector, criar modelos produzidos inteiramente por máquinas e robôs. A Reebok, por exemplo, apresentou, em Outubro de 2016, a tecnologia Liquid Factory, uma inovação completamente revolucionária que mudará, fundamentalmente, o processo e a velocidade de produção de calçado. Desenvolvido pela equipa Reebok Future, que se dedica totalmente à inovação e desenvolvimento de novos protótipos, o processo Liquid Factory utiliza software e robótica de última geração para desenhar sapatos, ou pelo menos alguns dos seus componentes, em três dimensões. A nova técnica deixa para trás os moldes tradicionais e utiliza um material líquido, completamente inovador, criado especialmente pela BASF para a Reebok, e usado para desenhar alguns componentes do sapato de forma limpa, precisa e em camadas tridimensionais. Os Reebok Liquid Speed foram os primeiros ténis a serem criados a partir deste processo e pretendem ser um modelo de corrida focado no retorno de energia. A sua sola, produzida em três dimensões neste novo e revolucionário material, abraça todo o pé para proporcionar um feedback sensorial muito mais abrangente. De acordo com as declarações disponibilizadas no site oficial da Reebok, o grande objectivo da marca passa por revolucionar um mercado que se encontrava estagnado. Bill McInnis, antigo engenheiro da NASA e actual Head of Future da Reebok, afirma: “A indústria do calçado não sofreu mudanças drásticas nos últimos 30 anos. Cada modelo de cada marca é criado através de moldes – um processo demorado e dispendioso. Com o Liquid Factory, queríamos mudar fundamentalmente a forma como os sapatos são feitos, criando um novo método de produção, sem moldes. Isto abre novas possibilidades tanto para aquilo que podemos criar, como à velocidade a que podemos criá-lo”.

 

Andar com laboratório nos pés

Por sua vez, a Adidas foi mais longe e lançou um novo par de sapatos projectados e criados quase totalmente por máquinas. Os ténis foram produzidos na SPEEDFACTORY, na Alemanha, a primeira fábrica cujo staff é maioritariamente composto por robôs. A SPEEDFACTORY é a grande aposta da Adidas no futuro da manufactura e utiliza aquilo que a marca apelida de “tecnologia robótica inteligente”. Este é o primeiro passo de uma estratégia bastante abrangente que prevê a produção local de produtos, em paralelo com os métodos de produção em massa, mais tradicionais, que a empresa emprega actualmente. Segundo o site oficial da marca, o objectivo é construir uma rede de manufactura descentralizada e flexível, que possa reagir localmente às necessidades dos consumidores. Gerd Manz, vice-presidente de inovação tecnológica da Adidas, afirma: “O lançamento do modelo Futurecraft M.F.G. (Made for Germany) é um momento decisivo para a indústria. Com a SPEEDFACTORY, temos uma inovação que veio alterar completamente a indústria e que pode ser instalada em qualquer lugar do mundo, levando o laboratório para as ruas. Dá-nos a oportunidade de combinar uma velocidade de produção única com a flexibilidade de repensar processos convencionais. O ponto de partida desta viagem é o modelo Futurecraft e a nossa ambição é poder dar aos consumidores aquilo que querem, quando querem.”

Quase 90% dos trabalhadores da indústria do vestuário e calçado no Camboja e no Vietname podem perder os seus empregos com linhas de montagem automatizadas.

Mas as inovações não se verificam apenas no sector do calçado desportivo. A indústria do vestuário tem vindo igualmente a alcançar grandes desenvolvimentos tecnológicos, através da introdução da robótica nos mais variados processos. O recurso a impressoras 3D parece ser a chave para o desenvolvimento e inovação, constituindo um factor comum a ambos os sectores – calçado e vestuário. Inicialmente, esta era um técnica difícil, se não impossível, de aplicar à indústria do vestuário, devido aos materiais utilizados. No entanto, Jonathan Zornow, fundador e, na altura, único funcionário da empresa Sewbo, com sede em Seattle, afirmou ter alcançado um incrível avanço tecnológico, conseguindo que um robô industrial produzisse, finalmente, uma peça de roupa inteira, unindo as várias partes de uma t-shirt, sem a ajuda de mão humana. Trabalhar com tecidos, especialmente materiais leves e flexíveis, era, até agora, um grande desafio no desenvolvimento da automatização da produção de vestuário. Jonathan inspirou-se na tecnologia da impressão 3D, que utiliza materiais termoplásticos solúveis em água, que são depois derretidos e moldados. Assim, endureceu o tecido temporariamente, tratando-o com os mesmos materiais, facilitando o trabalho dos robôs sobre a peça, como se esta fosse feita de chapa. Como os materiais utilizados são solúveis em água, basta enxaguar a peça no final para que esta regresse ao seu “comportamento” original.

“Com o Liquid Factory, queríamos mudar fundamentalmente a forma como os sapatos são feitos, criando um novo método de produção, sem moldes”.

Bill McInnis, Reebok

Durante a prototipagem, a Sewbo utilizou um robô industrial, cujo preço ronda os 35 mil dólares, e que foi “ensinado” a trabalhar com uma máquina de costura. Mas segundo Zornow, qualquer robô pode ser programado para realizar esta função, se forem dadas as devidas instruções para que  este consiga imitar o processo, ou criando software especializado. Tendo provado com sucesso este conceito, a Sewbo está agora a expandir a sua equipa e a trabalhar para comercializar a sua tecnologia. A longo prazo, as capacidades superiores dos robôs, nomeadamente velocidade e precisão, compensariam, em teoria, o investimento em máquinas e os custos de instalação. Jonathan Zornow alega que esta técnica poderia ser usada também para personalizar e alterar roupas localmente, respondendo rapidamente às preferências, necessidades e até às medidas e tamanhos dos consumidores. Num ambiente industrial, um fabricante poderia assim automatizar cada processo, cortando o tecido, endurecendo-o, modelando-o com vibrações acústicas de alta frequência, costurando-o e enxaguando-o para que regressasse ao normal. Com o crescimento da indústria fast-fashion, os robôs reprogramáveis constituiriam uma verdadeira revolução, podendo produzir uma grande variedade de produtos mais rapidamente, encurtando as cadeias de produção e diminuindo os longos prazos de entrega. No site oficial da Sewbo, Jonathan Zornow afirma: “A nossa tecnlogoia permitirá que os fabricantes criem roupas de alta qualidade a custos menores e em menos tempo do que nunca (…) A produção digital vai revolucionar a moda, até mesmo a forma como compramos as nossas roupas, permitindo uma personalização fácil e acessível para todos”.

“A produção digital vai revolucionar a moda, até mesmo a forma como compramos as nossas roupas, permitindo uma personalização fácil e acessível para todos”.

Jonathan Zornow, Sewbo

Créditos: Zack Dezon

As máquinas de costura controladas por computadores já são utilizadas por algumas empresas na indústria do vestuário, competindo com o trabalho precário, e por vezes de baixa qualidade, característico de alguns países asiátios. A SoftWear Automation, empresa com sede em Atlanta que apresentou estas máquinas de costura em 2012, está agora a trabalhar em novos robôs programados para unir as várias partes de uma peça de roupa.  Os testes têm tido grande sucesso, especialmente com tecidos mais estruturados, como a ganga, mas a empresa quer assegurar que as suas máquinas e tecnologia de ponta consigam trabalhar qualquer tecido com a mesma mestria de uma costureira altamente experiente e qualificada.

Com as recentes inovações, seria possível aumentar a velocidade de produção, uma das grandes preocupações dos líderes deste sector.

Naturalmente, este tipo de tecnologia terá enormes implicações para milhões de pessoas na Ásia e no sudeste da Ásia, especialmente mulheres. De acordo com um relatório de Julho de 2016 da Organização Internacional do Trabalho, quase 90% dos trabalhadores da indústria do vestuário e calçado no Camboja e no Vietname correm o risco de perder os seus empregos se ou quando forem implementadas linhas de montagem automatizadas. Esta é uma questão naturalmente controversa, uma vez que o mercado irá continuar a evoluir rapidamente, e a implementação destas inovações é praticamente inevitável numa indústria de grande dimensão. As marcas líderes do sector fast-fashion, conhecidas pelos seus preços acessíveis e colecções em constante mutação, têm grande parte das suas fábricas precisamente em países asiáticos, garantindo assim uma mão-de-obra mais barata. No entanto, com as recentes inovações, seria possível aumentar significativamente a velocidade de produção, um factor crucial e que é, actualmente, uma das grandes preocupações dos líderes deste sector, mantendo o baixo custo de produção. Isto representa, à partida, uma solução favorável às empresas da indústria, mas as suas implicações sociais, políticas e económicas têm os seus prós e contras. Enquanto a automatização iria, provavelmente, garantir o fim da exploração dos trabalhadores do sector do vestuário, as consequências de substituir milhares de pessoas por máquinas são preocupantes e devem ser consideradas, sobretudo em países que dependem fortemente desta indústria.

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